21 novembro 2019
Trail Report: Ultra Trail Atlas Toubkal

Por Nino Raleiras

Foto: DR

Se correr uma maratona em plena Cordilheira do Atlas, em Marrocos, com um desnível positivo de 2600 metros e com subidas nas quais a inclinação passa os 30% e que termina acima dos 3000 metros, seria, à partida, uma experiência inesquecível; o que realmente guardo do Ultra Trail Atlas Toubkal (UTAT), no qual participei de 3 a 6 de Outubro, é o sorriso das crianças, que residem em inóspitas aldeias e que nos saudavam efusivamente quando corríamos nas suas estradas de terra (se lá forem, levem algo para lhes ofercer, gomas ou rebuçados, pelo menos; eu só tinha barras energéticas, que receberam como se fosse o melhor presente da vida deles); a beleza de ver nascer o dia em plena prova e a camaradagem entre a comitiva portuguesa.

Sair da urbana e vibrante Marraquexe para Oukaïmeden, a principal estância de esqui de Marrocos, e ali deparar-me com o eremitismo dos pastores, que aproveitam os últimos dias antes da chegada da neve para passear os seus rebanhos, significou mergulhar numa realidade diferente de qualquer outra onde tinha corrido. O ar puro, a beleza das montanhas, que vão para além do que a vista alcança, e uma deliciosa tajine servida pelo simpático e prestável Aziz, tranquilizaram-me o suficiente para a primeira subida acima dos 3000 metros no dia que antecedeu a partida. E que maravilha é sentirmo-nos esmagados pela imponência daquela paisagem!

O resto desse primeiro dia foi passado com uma indisfarçável ansiedade, tendo verificado várias vezes se tinha todo o material obrigatório. É muito importante, principalmente na prova maior, de 105 km, na qual a maioria dos atletas passa duas noites em trilhos técnicos com muita inclinação, transportar tudo o que vem mencionado no site oficial do UTAT. A montanha consegue ser “traiçoeira” e se, durante a prova, encontrámos temperaturas acima dos 20º C, à noite, o frio fazia-se sentir. Já que menciono o equipamento, o site pt.snow-forecast.com/resorts/Oukaimeden/6day/mid é considerado o mais fidedigno na previsão meteorológica para aquela zona e isso é fundamental na escolha do que devemos vestir. Por exemplo, em 2018, os atletas depararam-se com temperaturas de -10º C.

Silêncio, que se vai vibrar com a natureza em todo o seu esplendor

A partida às 6h00, a 4 de Outubro, apesar de não ter sido acompanhada por fogo de artifício, brindou os aventureiros dos 105 km com uma surpreendente animação e foram muitos os participantes que iniciaram a prova entre animadas conversas. Mas o silêncio reinou quando os primeiros raios de luz surgiram! Que espectáculo maravilhoso que a natureza nos proporcionou.

Nessa altura, já percorria a primeira das pronunciadas descidas, que nos levou até ao vale onde o rio Ourika tem a sua nascente e entrámos em território Berbere. No primeiro abastecimento sentia-me tão bem que até conversei um pouco com Brahim Oussalm, o animado proprietário de um alojamento no Dour (pequena aldeia) Timichi.

Nesse momento, pareceram-me exagerados os 2 litros de água que transportava, mas que se viriam a mostrar adequados para as dificuldades que iria enfrentar. Ao longo dos 44 km do percurso apenas consegui comer uma barra energética e meia dúzia de frutos secos, tendo, no entanto, ingerido cerca de 10 litros de água. A altitude é realmente tramada!

A chegada ao majestoso Tizi n’Tacheddirt, a 3230 metros, obrigou a uma subida com um desnível positivo de 800 metros, feita num trilho de pedras. O cansaço começou a notar-se. Ali convenci-me de que o pior estava ultrapassado e não podia estar mais errado. A longa descida técnica, com passagem por estreitos e inclinados trilhos, foi percorrida com redobrada atenção e a um ritmo mais lento do que o esperado. “Só” faltavam 600 metros de desnível positivo.

A subida ao Tizi n’Addi, a 2960 metros, obrigou-me a várias paragens para recuperar o fôlego, pois a sua inclinação, em muitos dos caminhos superior a 30%, só pode ser agradável para as cabras que pareciam gozar com o nosso esforço. O libertador grito dado no fim da subida e saudado por apoiantes da armada francesa, que a todos brindavam com palavras de ânimo, animou-me de tal forma que, nos 6 km que faltavam para a meta, ultrapassei cerca de 10 companheiros de aventura.

12 km de histórias

No dia seguinte, podia correr os 26 km do Virée D´Ikkiss e, assim, cumprir o Challenge de L´Atlas, mas preferi conhecer outras pessoas e optei pelo Amazigh Trail e os seus “leves” 12 km (nunca pensei encontrar uma subida tão íngreme como a primeira).

Entre locais, apoiantes de atletas, pessoas vestidas para um frio polar e outros como se para a praia fossem, encontrei a sorridente Valèrie, que, ofegante, encheu o peito de ar para, com todo o orgulho deste mundo, contar que estava com o marido, que tinha terminado a prova principal em 16.º lugar (pouco tempo depois dos primeiros portugueses, Paulo Pires e José Santos) e que estava a participar naqueles 12 km para que também ele se orgulhasse dela. Foi já a rir que disse que aquela era a primeira vez na vida que corria. Que belo exemplo!

Entre animados brindes, prometi, no último jantar, ao Paulo Pires, à Dora e à estudante filha deles, ao Santos, ao Almeida, à Madalena, ao Gastão, à Sofia, à Anabela, ao João, ao Luís e ao “puto” Melo que aquela não seria a última prova em que estaríamos juntos! Venha a próxima aventura!

 

Seguro e confortável

Sendo a primeira vez que corri acima dos 3000 metros, num terreno desconhecido e a uma temperatura mais elevada do que o esperado quando aceitei o desafio, a escolha do equipamento ocupou-me algum tempo, tendo-me aconselhado com quem já tinha feito a prova. As opiniões foram quase unânimes: “Calçado com bom amortecimento; roupa com tecido respirável; boné, óculos de sol e protector solar. Vai o mais leve que conseguires.”

Nos pés levei os confortáveis Salomon Ultra Pro, que, apesar de só os ter testado ligeiramente no dia anterior à prova, mostraram-se seguros e frescos durante todo o percurso, sendo a sua “manga” de ajuste interno – Endofit – responsável por se adaptarem perfeitamente ao pé. Não tenho, pois, senão elogios para dar, até porque terminei a prova sem bolhas e com todas as unhas dos pés. Foram também da Salomon o boné e a t-shirt (S-lab Sense) escolhidos, que, embora com muitos quilómetros em cima, continuam impecáveis.

No pulso, o Suunto 9 revelou-se fiável mesmo em alta montanha, indicando sempre correctamente a localização, o que me permitiu gerir melhor os recursos durante as longas subidas. Mas, por vezes, pensei que mais valia estar na “ignorância”. Por fim, e por ter tanto material obrigatório para transportar, optei pelo colete Salomon S-Lab Sense Ultra 5, que se manteve seguro e ajustado durante todo o percurso, evitando, assim, o desconforto que por vezes sentimos quando as garrafas de hidratação deixam de ter o mesmo peso ou retiramos algo das bolsas.

Leia também "Uma aventura no Atlas"

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