04 janeiro 2020
Um ano passado a correr

Por Miguel Judas

São três provas totalmente diferentes, mas que, no seu conjunto, compõem uma das trilogias mais clássicas das corridas de estrada em Portugal. Falamos das São Silvestre de Lisboa, dos Olivais e da Amadora. Como é hábito, o primeiro tiro de partida foi dado em Lisboa, ao fim da tarde de sábado, 28 de Dezembro, no Terreiro do Paço, onde mais de doze mil pessoas entupiram por completo a baixa da capital. Esse é aliás o principal senão da prova, a enorme quantidade de participantes, que acabam por atrasar o arranque dos blocos ditos mais lentos, mas o dorsal de sub-45 ajudou-nos a evitar o engarrafamento inicial. Para a maioria, no entanto, isso não é propriamente um problema, até porque a São Silvestre de Lisboa é cada vez mais uma festa, um momento de convívio entre amigos e de desafio pessoal. O ambiente que se vive nesta época do ano em Lisboa também ajuda a proporcionar esse ambiente, com ruas enfeitadas e milhares de pessoas aplaudir os atletas. Tantas que uma pessoa quase se esquece que está mesmo a participar numa prova. Há gente vestida de rena, muitos barretes de Pai Natal e até alguns com luzes enroladas ao corpo, que piscam durante todo o percurso e divertem quem está de fora.

A maior

É no percurso junto ao rio que realmente se percebe a dimensão desta São Silvestre, quando, já no regresso, uma imensa multidão continua a avançar em sentido contrário. Já falta pouco para a meta, mas antes ainda temos de vencer a subida da Avenida da Liberdade e depois, de novo para baixo, contar com a ajuda de todos os santos, em especial do tal São Silvestre, que foi papa no século IV, durante o reinado do imperador romano Constantino I e é hoje uma espécie de padroeiro oficioso dos corredores. Cumprido, mesmo que só por alguns segundos, o objetivo estampado no dorsal, foi tempo de festejar o feito ali bem perto, no Rossio, com um copo de ginja na mão – o que, a avaliar pela fila de corredores à porta do dito estabelecimento, também já virou tradição nesta São Silvestre de Lisboa.

A mais antiga da capital

No dia seguinte, pela mesma hora, é bem diferente o ambiente que se vive no bairro lisboeta dos Olivais, que apesar de situado na capital tem direito a uma São Silvestre em nome próprio. E não é uma qualquer, trata-se nada mais nada menos que a São Silvestre mais antiga da capital portuguesa, com 31 edições acabadas de cumprir. A partida está marcada para as 19 horas, mas duas horas antes apenas nos cafés à volta do mercado da Encarnação se vê algum movimento fora do normal. No café O Caçador, alguns corredores mais experientes nestas andanças vão chegando mais cedo, para forrar o estômago com as afamadas bifanas da casa, que depressa esgotam, para desespero de alguns retardatários.

Com o avançar do tempo, o ambiente de dia de prova vai-se instalando aos poucos na rua em frente à Junta de Freguesia. Apesar de não ter tantos participantes como a prova do dia anterior, ainda é uma pequena multidão de cerca de dois mil atletas que invade as ruas quase desertas dos Olivais nesta fria noite de domingo. Além da partida e chegada, também junto ao quartel dos Bombeiros dos Olivais e num ou noutro ponto do percurso ouvem-se aplausos e gritos de incentivo. “São poucos, mas bons”, comenta um atleta, levantando os braços em jeito de agradecimento. Mas logo os baixou em seguida, para enfrentar a segunda das temíveis subidas dos Olivais. “Venho cá todos os anos, mas esqueço-me sempre de que [as subidas] custam tanto”, diz, com os dentes cerrados, a tentar esboçar um sorriso. “Esquecemo-nos todos, mas a partir daqui é sempre a descer e a descer todos os santos ajudam”, alguém respondeu. E ajudaram mesmo, pois pouco tempo depois, apenas alguns segundos passados do minuto 46, lá estávamos a cortar a meta.

A mítica e mais antiga de Portugal Continental

Devido aos caprichos do calendário, a derradeira São Silvestre, a mais popular de todas e também a mais antiga de Portugal Continental, a da Amadora, só se disputou na terça-feira, véspera de ano novo, como é tradição. Mais de quatro décadas de história fazem desta prova um clássico, sempre com enorme adesão popular, tanto de atletas como de público. Este ano não foi exceção e à hora de partida, às seis em ponto, havia quase tanto público quanto corredores.

O percurso da Amadora - e disto ninguém se esquece - não é dos mais fáceis. A primeira metade da prova é quase uma única subida, mas com tamanho apoio, tanto aplauso e gritaria, toda a gente se sente um Carlos Lopes ou uma Rosa Mota - e a campeã olímpica até lá estava, em carne e osso, a receber quem cortava a meta, cumprindo a preceito o papel de madrinha da prova, depois de aos 61 anos ter concluído o percurso em pouco mais de 39 minutos.

Ainda faltava muito para a meia-noite, mas pelas ruas da Amadora, sempre cheias de gente, já se abriam por esta altura garrafas de espumante à passagem dos atletas. Na mítica (e dolorosa) subida dos comandos até havia alguém a distribuir minis pelos corredores. E houve quem as aceitasse, provocando risos e muitos aplausos da multidão. Ultrapassada a última subida, já de regresso ao centro da Amadora, começa-se finalmente a descer em direção à meta. Venham de lá então outra vez esses santos, que a seguir há festa e convém não demorar muito mais do que 46 minutos.

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