02 outubro 2019
Abutres em tons de Verão

Foto: Fotos do Zé

Texto: Miguel Judas

Um dia depois do campeonato do mundo de trai foi a vez do pelotão percorrer os mesmo trilhos que consagraram o britânico Jonathan Albon como campeão mundial e Hélio Fumo como o melhor português.

Seja de Verão ou de Inverno os Abutres serão sempre os Abutres, mas sem o vento, a chuva, o frio e especialmente a lama, a tão famosa quanto amaldiçoada lama, a verdade é que estes foram uns Abutres um pouco mais adocicados. Mas enfim, quem não gosta de um docinho de vez em quando? E neste caso, a prova aberta até foi a sobremesa perfeita para o cada vez mais imenso pelotão do trail nacional, que no dia anterior se banqueteou a ver alguns dos melhores atletas da actualidade a disputarem o título mundial por estes mesmos trilhos.

Para quem já percorreu os Trilhos dos Abutres em anos anteriores, o céu azul e o sol brilhante não deixavam de provocar um sorriso de alívio e, até, de uma certa fanfarronice perante os receios dos estreantes – e tantos que eles eram. “Ah, naquele ano da tempestade, em que a serra se transformou numa torrente de lama” ou “aquele outro, em que caíram pedras de granizo do tamanho de bolas de golfe” e “quando estava tanto frio que deixei de sentir as mãos”, comentava entre si, enquanto esperava pela partida, um grupo de atletas mais veteranos nestas andanças, perante a inocente incredulidade de alguns caloiros.

Devido ao campeonato do mundo e porque a prova aberta seria disputada no mesmo trajecto percorrido pelas selecções, a habitual extensão de 50 km também foi reduzida para 44, obrigando a algumas mudanças no percurso, nomeadamente na primeira parte, o que acabou por se revelar uma agradável surpresa para quem já havia disputado anteriormente os Trilhos dos Abutres, “quase como se fosse outra prova”, como alguém comentou a dada altura, enquanto esperava, num engarrafamento de atletas, numa subida a seguir ao primeiro abastecimento, em Vila Nova. Este terá sido o único “senão”. Alguns engarrafamentos iniciais, o primeiro logo no início, no trilho que ao longo do rio Dueça liga o centro de Miranda do Corvo ao Parque Biológico e, mais tarde, na tal subida a seguir a Vila Nova. Mas como uma “atleta alentejana” também disse, enquanto esperava, “é da maneira que podemos apreciar esta bonita paisagem” – E, de facto, que bonita era a paisagem.

Devido à ausência da lama a prova tornou-se bastante mais “corrível” e, com o passar dos quilómetros, depressa começou a assumir a sua ordem natural, com os grupos a ficarem cada vez mais espaçados e alguns atletas a percorrerem quilómetros juntos, nascendo assim novas amizades ou fortalecendo os laços já feitos noutros trilhos. Aqui e ali, passa-se ou é-se passado por um amigo ou conhecido. Lá surge a tradicional provocação, seguida de um incentivo e cada um lá continua, depois, a seu ritmo.

Tudo normal, excepto o que a todos nos esperava na ermida da Senhora da Piedade, onde a algazarra já se ouvia desde há muitos quilómetros. Ao longo da escadaria, uma verdadeira multidão afunilava os atletas, numa explosão de aplausos e gritos, replicando ali mesmo um cenário tantas vezes visto noutras paragens do trail internacional, que decerto vai ficar para história deste desporto em Portugal. Entre as centenas de caras anónimas, também lá estavam os atletas da selecção nacional, a retribuir da mesma forma, com aplausos, o apoio dado no dia anterior por muita desta gente que agora passava por entre esta verdadeira guarda de honra e mesmo quem nunca pensou subir aquela ingreme escadaria a correr, acabou por fazê-lo. Ainda faltavam muitos quilómetros para terminar, é certo, mas ali, naquele momento, todos fomos vencedores.

Naquele momento e na chegada à meta. Foi épica! Ora vejam aqui.

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